Empresa que contrata de verdade não cobra do candidato. Taxa de inscrição, “curso obrigatório” pago, exame médico por sua conta, kit ou crachá para “garantir a vaga”: qualquer pedido de dinheiro antes da contratação é o sinal mais confiável de golpe. A CLT põe parte desses custos do lado do empregador: o exame médico é feito “por conta do empregador” (art. 168) e o equipamento de proteção individual tem de ser fornecido gratuitamente (art. 166).
O problema é que golpe raramente se apresenta como golpe. Em outubro de 2025, a Advocacia-Geral da União derrubou um site que copiava a identidade visual do governo federal, simulava uma página do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e cobrava R$ 83,40 de quem queria “garantir” uma vaga numa estatal. O endereço começava com “govbr”, mas não terminava em .gov.br. É o tipo de detalhe que passa batido para quem está há meses sem trabalho e com pressa, justamente o público que os golpistas procuram.
Oito sinais de que a vaga é falsa
- Pedem dinheiro antes de contratar. Taxa de cadastro, de “análise de perfil”, de curso, de material, de exame, Pix para “reservar” a vaga. Se pediram, pare.
- A proposta é boa demais para o que exigem. Salário bem acima do que o cargo costuma pagar, sem pedir experiência, com jornada curta, trabalho em casa e “início imediato”.
- Tudo acontece só por mensagem. O recrutador não informa o nome da empresa, não tem e-mail corporativo, foge de videochamada e faz a “entrevista” inteira por texto no WhatsApp ou no Telegram.
- A pressa faz parte do roteiro. “Últimas vagas”, “responda em até 1 hora”, “o sistema fecha hoje”. A urgência existe para você não conferir.
- Pedem documentos cedo demais. Foto do RG frente e verso, selfie segurando o documento, dados bancários, antes de qualquer entrevista. Documentos para registro costumam ser pedidos na admissão, depois da aprovação, e senha nunca entra na lista.
- Pedem um código que chegou por SMS. Código de verificação do WhatsApp, do banco ou do gov.br não faz parte de processo seletivo. Quem repassa pode perder a conta para o golpista.
- O endereço do site ou do e-mail não bate. Sites de órgãos federais terminam em .gov.br. Proposta de empresa grande vinda de e-mail gratuito, ou de domínio com uma letra trocada, merece desconfiança.
- A empresa é impossível de achar. Sem CNPJ, sem endereço, sem site próprio, ou com nome que imita uma marca conhecida.
Um sinal isolado nem sempre prova golpe: muito pequeno comércio recruta pelo WhatsApp mesmo. O que pesa é a combinação. A exceção é o primeiro item, que sozinho já basta para encerrar a conversa.
Os formatos de golpe mais comuns
Os roteiros mudam de nome, mas a estrutura se repete.
| Formato | Como costuma chegar | O que pedem de você |
|---|---|---|
| Taxa para garantir a vaga | Anúncio em rede social ou mensagem com logotipo de empresa conhecida ou de órgão público | Pix de “inscrição”, “seleção” ou “cadastro” |
| Curso obrigatório pago | Aprovação rápida, seguida de um “treinamento obrigatório” numa escola indicada por eles | Pagamento do curso, às vezes com promessa de reembolso no primeiro salário |
| Renda extra com tarefas | Mensagem de desconhecido oferecendo dinheiro para curtir vídeos, avaliar produtos ou seguir perfis | Paga valores pequenos no começo e depois exige depósitos para “liberar” tarefas maiores |
| Kit para trabalhar em casa | Vaga de montagem, embalagem, artesanato ou revenda | Compra de kit ou material; o trabalho entregue nunca é pago |
| Coleta de documentos | Falsa entrevista ou “pré-admissão” on-line | Foto de documento, selfie, CPF e dados bancários, que podem ser usados para abrir conta ou pedir crédito no seu nome |
| Vaga em outra cidade | Oferta com passagem e alojamento pagos e salário alto, muitas vezes divulgada em grupos | Viagem imediata; no destino, passagem, comida e moradia viram dívida descontada do salário |
O último formato é o mais grave. Vários casos de trabalhadores resgatados pelo MTE em condição análoga à escravidão começaram assim: aliciamento por redes sociais ou grupos de mensagem, promessa de bons ganhos e uma dívida que impede a pessoa de ir embora.
Como checar uma vaga em dez minutos
Exemplo hipotético: mensagem oferecendo vaga de auxiliar administrativo em home office, R$ 4.500 por mês, sem experiência, entrevista pelo WhatsApp e taxa de R$ 49,90 para o “curso de integração”. Três sinais aparecem antes de qualquer pesquisa. Quando a oferta é menos óbvia, siga esta ordem:
- Procure a vaga no site oficial da empresa, na área de carreiras ou “Trabalhe conosco”. Digite o endereço você mesmo ou pesquise o nome da empresa, em vez de clicar no link que recebeu.
- Se não encontrar, entre em contato por um telefone ou e-mail que esteja no site oficial (não o número que mandou a mensagem) e pergunte se aquele processo existe.
- Consulte o CNPJ informado na consulta pública da Receita Federal e veja se nome, atividade e endereço combinam com a história contada. CNPJ ativo não prova que a vaga é real, mas CNPJ inexistente ou de outro ramo encerra a dúvida.
- Leia o endereço do site e o domínio do e-mail letra por letra.
- Pesquise o telefone e o nome do suposto recrutador junto com a palavra “golpe”. Golpes em série deixam rastro.
- Se a vaga for em órgão público ou estatal, a contratação em regra passa por concurso ou processo seletivo com edital publicado. Se usarem o nome do Ministério do Trabalho e Emprego, confirme pelo telefone 158 ou pelo Fale Conosco do ministério, canais que o próprio MTE indica nos seus alertas.
Onde procurar vagas com mais segurança
Nenhum canal está livre de anúncio falso, mas os públicos têm uma vantagem: as vagas passam pelo Sistema Nacional de Emprego (Sine), e o serviço, segundo a página oficial, “é gratuito para o cidadão”.
App Carteira de Trabalho Digital
Desde janeiro de 2025, o app Carteira de Trabalho Digital mostra as vagas do Sine (a função substituiu o antigo aplicativo Sine Fácil). O acesso é com a conta gov.br. Pelo passo a passo do MTE, você toca no ícone de maleta na barra inferior (ou na opção “Emprego” do menu), atualiza suas informações pessoais e objetivos profissionais e confere em “Vagas de emprego” as oportunidades compatíveis. Ao escolher uma vaga, o andamento aparece em “Processos seletivos”. O app também avisa quando surge vaga compatível com seu perfil e seu endereço. Os nomes das telas podem mudar com atualizações.
Portal Emprega Brasil
No computador, o mesmo serviço funciona no Portal Emprega Brasil, também com login gov.br: você faz o cadastro, consulta vagas com base nele e se candidata, com agendamento de entrevista. A página Buscar Emprego no Sine, no gov.br, reúne os canais de acesso. Vale manter o currículo do cadastro atualizado; se ainda não tem um, o guia sobre como fazer o primeiro currículo sem experiência ajuda a montar.
Postos do Sine
O atendimento presencial continua, nos postos mantidos por estados e prefeituras. Leve seus documentos pessoais. Em alguns lugares o posto tem outro nome, como Agência do Trabalhador ou Casa do Trabalhador. Se alguém disser que é do Sine e pedir pagamento, desconfie: o serviço é gratuito.
Sites de carreira das próprias empresas
Empresas médias e grandes publicam vagas na área “Trabalhe conosco” ou “Carreiras” do site oficial, muitas vezes por uma plataforma de recrutamento terceirizada. Tudo bem a candidatura acontecer fora do site da empresa, desde que você tenha chegado lá a partir do site oficial, e não por um link encaminhado.
LinkedIn e outros sites de vagas
Muita contratação real passa por eles, mas anúncio falso também aparece. Valem as mesmas regras: não pagar nada, desconfiar de recrutador que leva a conversa direto para o WhatsApp e conferir a vaga no site da empresa. Para usar a rede profissional a seu favor, veja como montar e usar o perfil do LinkedIn para conseguir entrevistas.
Caí no golpe: o que fazer, nesta ordem
- Pare de pagar e de responder. É comum o golpista voltar com uma segunda cobrança, como “taxa de liberação” ou “multa por desistência”.
- Guarde as provas antes que sumam. Prints das conversas com o número visível, link e captura do anúncio, comprovantes de Pix, e-mails recebidos.
- Acione o banco no mesmo dia, se pagou por Pix. Peça a devolução pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED). Os bancos têm de oferecer no aplicativo uma opção para contestar Pix por suspeita de fraude; se não encontrar, ligue para o atendimento e diga com todas as letras que foi golpe. Quanto antes o pedido, maior a chance de ainda haver dinheiro na conta de quem recebeu.
- Registre boletim de ocorrência. Muitos estados aceitam o registro pela delegacia virtual da Polícia Civil. O serviço federal Registrar Ocorrência Policial Online (DEVIR) vale para fatos ocorridos nos estados que aderiram e exige conta gov.br e 18 anos ou mais. Sem opção on-line, vá a uma delegacia. O B.O. pode ser pedido pelo banco.
- Denuncie o perfil e o anúncio na plataforma onde apareceram: rede social, site de vagas ou aplicativo de mensagens.
- Se enviou documentos, acompanhe o uso do seu CPF. O Registrato, do Banco Central, mostra relatórios de contas, empréstimos e chaves Pix ligadas ao seu nome, com acesso pela conta gov.br nível prata ou ouro. Encontrou algo que não reconhece? Procure a instituição que aparece no relatório.
- Avise quem teve o nome usado. Se o golpe usou uma empresa real, informe a empresa pelos canais oficiais dela. Se usou o Ministério do Trabalho e Emprego, comunique pelo 158 ou pelo Fale Conosco do MTE.
- Se a vaga envolvia viagem, alojamento e dívida, ou se alguém está sendo impedido de ir embora do local de trabalho, denuncie no Sistema Ipê, canal do MTE para trabalho análogo à escravidão, ou pelo Disque 100. Nos dois é possível denunciar sem se identificar.
Se chegou a trabalhar e houve salário retido ou descontos indevidos, o caso também é trabalhista: o sindicato da categoria, a Defensoria Pública ou um advogado trabalhista podem orientar.
Antes de responder qualquer proposta
- Alguém pediu dinheiro, por qualquer motivo? Pare aqui.
- Encontrei essa vaga no site oficial da empresa ou num canal público, como o app Carteira de Trabalho Digital?
- Sei o nome da empresa, o CNPJ e quem está falando comigo?
- Pediram código recebido por SMS, senha ou selfie com documento?
- Salário, jornada e exigências fazem sentido para esse cargo?
- Estão me apressando para decidir hoje?
Duas respostas erradas já justificam um passo atrás. Vaga verdadeira continua lá depois que você confere.