Vagas de Emprego

Vagas de emprego falsas: sinais de golpe e onde procurar vaga

Por Leonardo Paiva · 4 de novembro de 2026 · 10 min de leitura

Empresa que contrata de verdade não cobra do candidato. Taxa de inscrição, “curso obrigatório” pago, exame médico por sua conta, kit ou crachá para “garantir a vaga”: qualquer pedido de dinheiro antes da contratação é o sinal mais confiável de golpe. A CLT põe parte desses custos do lado do empregador: o exame médico é feito “por conta do empregador” (art. 168) e o equipamento de proteção individual tem de ser fornecido gratuitamente (art. 166).

O problema é que golpe raramente se apresenta como golpe. Em outubro de 2025, a Advocacia-Geral da União derrubou um site que copiava a identidade visual do governo federal, simulava uma página do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e cobrava R$ 83,40 de quem queria “garantir” uma vaga numa estatal. O endereço começava com “govbr”, mas não terminava em .gov.br. É o tipo de detalhe que passa batido para quem está há meses sem trabalho e com pressa, justamente o público que os golpistas procuram.

Oito sinais de que a vaga é falsa

  1. Pedem dinheiro antes de contratar. Taxa de cadastro, de “análise de perfil”, de curso, de material, de exame, Pix para “reservar” a vaga. Se pediram, pare.
  2. A proposta é boa demais para o que exigem. Salário bem acima do que o cargo costuma pagar, sem pedir experiência, com jornada curta, trabalho em casa e “início imediato”.
  3. Tudo acontece só por mensagem. O recrutador não informa o nome da empresa, não tem e-mail corporativo, foge de videochamada e faz a “entrevista” inteira por texto no WhatsApp ou no Telegram.
  4. A pressa faz parte do roteiro. “Últimas vagas”, “responda em até 1 hora”, “o sistema fecha hoje”. A urgência existe para você não conferir.
  5. Pedem documentos cedo demais. Foto do RG frente e verso, selfie segurando o documento, dados bancários, antes de qualquer entrevista. Documentos para registro costumam ser pedidos na admissão, depois da aprovação, e senha nunca entra na lista.
  6. Pedem um código que chegou por SMS. Código de verificação do WhatsApp, do banco ou do gov.br não faz parte de processo seletivo. Quem repassa pode perder a conta para o golpista.
  7. O endereço do site ou do e-mail não bate. Sites de órgãos federais terminam em .gov.br. Proposta de empresa grande vinda de e-mail gratuito, ou de domínio com uma letra trocada, merece desconfiança.
  8. A empresa é impossível de achar. Sem CNPJ, sem endereço, sem site próprio, ou com nome que imita uma marca conhecida.

Um sinal isolado nem sempre prova golpe: muito pequeno comércio recruta pelo WhatsApp mesmo. O que pesa é a combinação. A exceção é o primeiro item, que sozinho já basta para encerrar a conversa.

Os formatos de golpe mais comuns

Os roteiros mudam de nome, mas a estrutura se repete.

Formato Como costuma chegar O que pedem de você
Taxa para garantir a vaga Anúncio em rede social ou mensagem com logotipo de empresa conhecida ou de órgão público Pix de “inscrição”, “seleção” ou “cadastro”
Curso obrigatório pago Aprovação rápida, seguida de um “treinamento obrigatório” numa escola indicada por eles Pagamento do curso, às vezes com promessa de reembolso no primeiro salário
Renda extra com tarefas Mensagem de desconhecido oferecendo dinheiro para curtir vídeos, avaliar produtos ou seguir perfis Paga valores pequenos no começo e depois exige depósitos para “liberar” tarefas maiores
Kit para trabalhar em casa Vaga de montagem, embalagem, artesanato ou revenda Compra de kit ou material; o trabalho entregue nunca é pago
Coleta de documentos Falsa entrevista ou “pré-admissão” on-line Foto de documento, selfie, CPF e dados bancários, que podem ser usados para abrir conta ou pedir crédito no seu nome
Vaga em outra cidade Oferta com passagem e alojamento pagos e salário alto, muitas vezes divulgada em grupos Viagem imediata; no destino, passagem, comida e moradia viram dívida descontada do salário

O último formato é o mais grave. Vários casos de trabalhadores resgatados pelo MTE em condição análoga à escravidão começaram assim: aliciamento por redes sociais ou grupos de mensagem, promessa de bons ganhos e uma dívida que impede a pessoa de ir embora.

Como checar uma vaga em dez minutos

Exemplo hipotético: mensagem oferecendo vaga de auxiliar administrativo em home office, R$ 4.500 por mês, sem experiência, entrevista pelo WhatsApp e taxa de R$ 49,90 para o “curso de integração”. Três sinais aparecem antes de qualquer pesquisa. Quando a oferta é menos óbvia, siga esta ordem:

  1. Procure a vaga no site oficial da empresa, na área de carreiras ou “Trabalhe conosco”. Digite o endereço você mesmo ou pesquise o nome da empresa, em vez de clicar no link que recebeu.
  2. Se não encontrar, entre em contato por um telefone ou e-mail que esteja no site oficial (não o número que mandou a mensagem) e pergunte se aquele processo existe.
  3. Consulte o CNPJ informado na consulta pública da Receita Federal e veja se nome, atividade e endereço combinam com a história contada. CNPJ ativo não prova que a vaga é real, mas CNPJ inexistente ou de outro ramo encerra a dúvida.
  4. Leia o endereço do site e o domínio do e-mail letra por letra.
  5. Pesquise o telefone e o nome do suposto recrutador junto com a palavra “golpe”. Golpes em série deixam rastro.
  6. Se a vaga for em órgão público ou estatal, a contratação em regra passa por concurso ou processo seletivo com edital publicado. Se usarem o nome do Ministério do Trabalho e Emprego, confirme pelo telefone 158 ou pelo Fale Conosco do ministério, canais que o próprio MTE indica nos seus alertas.

Onde procurar vagas com mais segurança

Nenhum canal está livre de anúncio falso, mas os públicos têm uma vantagem: as vagas passam pelo Sistema Nacional de Emprego (Sine), e o serviço, segundo a página oficial, “é gratuito para o cidadão”.

App Carteira de Trabalho Digital

Desde janeiro de 2025, o app Carteira de Trabalho Digital mostra as vagas do Sine (a função substituiu o antigo aplicativo Sine Fácil). O acesso é com a conta gov.br. Pelo passo a passo do MTE, você toca no ícone de maleta na barra inferior (ou na opção “Emprego” do menu), atualiza suas informações pessoais e objetivos profissionais e confere em “Vagas de emprego” as oportunidades compatíveis. Ao escolher uma vaga, o andamento aparece em “Processos seletivos”. O app também avisa quando surge vaga compatível com seu perfil e seu endereço. Os nomes das telas podem mudar com atualizações.

Portal Emprega Brasil

No computador, o mesmo serviço funciona no Portal Emprega Brasil, também com login gov.br: você faz o cadastro, consulta vagas com base nele e se candidata, com agendamento de entrevista. A página Buscar Emprego no Sine, no gov.br, reúne os canais de acesso. Vale manter o currículo do cadastro atualizado; se ainda não tem um, o guia sobre como fazer o primeiro currículo sem experiência ajuda a montar.

Postos do Sine

O atendimento presencial continua, nos postos mantidos por estados e prefeituras. Leve seus documentos pessoais. Em alguns lugares o posto tem outro nome, como Agência do Trabalhador ou Casa do Trabalhador. Se alguém disser que é do Sine e pedir pagamento, desconfie: o serviço é gratuito.

Sites de carreira das próprias empresas

Empresas médias e grandes publicam vagas na área “Trabalhe conosco” ou “Carreiras” do site oficial, muitas vezes por uma plataforma de recrutamento terceirizada. Tudo bem a candidatura acontecer fora do site da empresa, desde que você tenha chegado lá a partir do site oficial, e não por um link encaminhado.

LinkedIn e outros sites de vagas

Muita contratação real passa por eles, mas anúncio falso também aparece. Valem as mesmas regras: não pagar nada, desconfiar de recrutador que leva a conversa direto para o WhatsApp e conferir a vaga no site da empresa. Para usar a rede profissional a seu favor, veja como montar e usar o perfil do LinkedIn para conseguir entrevistas.

Caí no golpe: o que fazer, nesta ordem

  1. Pare de pagar e de responder. É comum o golpista voltar com uma segunda cobrança, como “taxa de liberação” ou “multa por desistência”.
  2. Guarde as provas antes que sumam. Prints das conversas com o número visível, link e captura do anúncio, comprovantes de Pix, e-mails recebidos.
  3. Acione o banco no mesmo dia, se pagou por Pix. Peça a devolução pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED). Os bancos têm de oferecer no aplicativo uma opção para contestar Pix por suspeita de fraude; se não encontrar, ligue para o atendimento e diga com todas as letras que foi golpe. Quanto antes o pedido, maior a chance de ainda haver dinheiro na conta de quem recebeu.
  4. Registre boletim de ocorrência. Muitos estados aceitam o registro pela delegacia virtual da Polícia Civil. O serviço federal Registrar Ocorrência Policial Online (DEVIR) vale para fatos ocorridos nos estados que aderiram e exige conta gov.br e 18 anos ou mais. Sem opção on-line, vá a uma delegacia. O B.O. pode ser pedido pelo banco.
  5. Denuncie o perfil e o anúncio na plataforma onde apareceram: rede social, site de vagas ou aplicativo de mensagens.
  6. Se enviou documentos, acompanhe o uso do seu CPF. O Registrato, do Banco Central, mostra relatórios de contas, empréstimos e chaves Pix ligadas ao seu nome, com acesso pela conta gov.br nível prata ou ouro. Encontrou algo que não reconhece? Procure a instituição que aparece no relatório.
  7. Avise quem teve o nome usado. Se o golpe usou uma empresa real, informe a empresa pelos canais oficiais dela. Se usou o Ministério do Trabalho e Emprego, comunique pelo 158 ou pelo Fale Conosco do MTE.
  8. Se a vaga envolvia viagem, alojamento e dívida, ou se alguém está sendo impedido de ir embora do local de trabalho, denuncie no Sistema Ipê, canal do MTE para trabalho análogo à escravidão, ou pelo Disque 100. Nos dois é possível denunciar sem se identificar.

Se chegou a trabalhar e houve salário retido ou descontos indevidos, o caso também é trabalhista: o sindicato da categoria, a Defensoria Pública ou um advogado trabalhista podem orientar.

Antes de responder qualquer proposta

  • Alguém pediu dinheiro, por qualquer motivo? Pare aqui.
  • Encontrei essa vaga no site oficial da empresa ou num canal público, como o app Carteira de Trabalho Digital?
  • Sei o nome da empresa, o CNPJ e quem está falando comigo?
  • Pediram código recebido por SMS, senha ou selfie com documento?
  • Salário, jornada e exigências fazem sentido para esse cargo?
  • Estão me apressando para decidir hoje?

Duas respostas erradas já justificam um passo atrás. Vaga verdadeira continua lá depois que você confere.

O LDicas é um site informativo: não é agência de empregos, não participa de processos seletivos e nunca cobra para indicar vagas. Candidate-se sempre pelo canal oficial da empresa e desconfie de quem pedir pagamento.