Currículo

Currículo sem experiência: como montar o primeiro, seção por seção

Por Leonardo Paiva · 4 de novembro de 2026 · 9 min de leitura

O primeiro currículo não precisa esconder a falta de emprego anterior, e também não precisa de uma seção “Experiência profissional” vazia. Ele precisa responder, em uma página, a três perguntas de quem vai ler: para qual vaga você está se candidatando, o que você já sabe fazer e se dá para contar com você nos horários combinados.

Essas respostas podem sair da escola, de cursos gratuitos, de bicos, de trabalho voluntário, de projetos e até da ajuda no comércio da família. Em vagas de entrada, como jovem aprendiz, estágio, atendente, repositor ou auxiliar administrativo, ninguém espera trajetória. O que pesa é um contato que funcione, escolaridade clara, disponibilidade de horário e algum sinal de iniciativa.

A seguir, a ordem das seções, o que escrever em cada uma, como transformar atividades do dia a dia em linhas de currículo e um modelo com dados fictícios.

Antes de escrever: idade e tipo de vaga

A Constituição (art. 7º, inciso XXXIII) proíbe qualquer trabalho a menores de 16 anos, salvo na condição de aprendiz, a partir dos 14. Também proíbe trabalho noturno, perigoso ou insalubre antes dos 18. Na prática, isso define para onde o seu currículo vai:

  • 14 e 15 anos: só programas de aprendizagem. O contrato de aprendiz vale dos 14 aos 24 anos incompletos (sem limite de idade para pessoa com deficiência), e quem não terminou o ensino médio precisa estar matriculado e frequentando a escola. Jornada, salário e inscrição estão explicados no guia sobre como funciona o programa Jovem Aprendiz.
  • Estudante de ensino médio, técnico ou superior: além da aprendizagem, o estágio, regido pela Lei 11.788/2008, que exige matrícula e frequência regular no curso, atestadas pela instituição de ensino.
  • A partir de 16 anos, estudando ou não: vagas de entrada com carteira assinada, desde que não sejam noturnas, perigosas ou insalubres antes dos 18.

O alvo muda a ênfase: para aprendiz e estágio, pesam escola e turno; para atendente, contato com público e sábados livres.

As seções do currículo, na ordem

1. Nome e contato

No topo, seu nome completo em destaque. Logo abaixo, em uma ou duas linhas: cidade e bairro, telefone com DDD (avise se é WhatsApp) e e-mail. Se o seu e-mail atual é apelido ou brincadeira, crie outro só para isso, no formato nome.sobrenome. Perfil de LinkedIn atualizado também pode entrar aqui.

Não entram CPF, RG, número da casa, nome dos pais nem foto (a não ser que o anúncio peça). Documentos são pedidos na contratação, não na triagem. A data de nascimento é opcional; em vaga de aprendiz, informar a idade ajuda, porque ela é requisito do programa.

2. Objetivo

Uma linha, com o nome da vaga ou da área: “Objetivo: Jovem Aprendiz na área administrativa” ou “Objetivo: atendente de loja”. Evite “qualquer área” e frases como “busco uma oportunidade para crescer profissionalmente”, que não dizem nada sobre você. Se for mandar para vagas diferentes, troque essa linha a cada envio.

3. Resumo (opcional)

Duas ou três linhas que adiantam o que vem abaixo. Para quem não tem experiência, o resumo é útil porque coloca na frente o que você tem de mais forte. Exemplo: “Estudante do 2º ano do ensino médio, turno da manhã. Ajudo há dois anos no atendimento da mercearia da família e concluí curso online de Excel básico. Disponível à tarde.”

4. Formação

Coloque o nível mais alto, a escola, a situação e a previsão de término: “Ensino médio – Escola Estadual (nome) – cursando o 2º ano, manhã – conclusão prevista em dez/2027”. Informar o turno é útil porque mostra, de cara, em que horário você pode trabalhar. Se já cursa o ensino médio, não precisa listar o fundamental. Curso técnico em andamento entra aqui também.

5. Cursos e certificados

Use o formato curso, instituição, carga horária e ano. Prefira de três a cinco cursos ligados à vaga, em vez de vinte certificados de duas horas sem relação entre si. Há opções gratuitas, como a Escola do Trabalhador 4.0, plataforma online do Ministério do Trabalho e Emprego em parceria com a Microsoft, com cursos de tecnologia e produtividade. Escolas técnicas e unidades do Sine também costumam divulgar turmas gratuitas na sua cidade.

6. Atividades e experiências

Esta é a seção que ocupa o lugar do emprego anterior. O título pode ser “Experiências”, se houver trabalho informal ou voluntário, ou “Atividades e projetos”, se for algo da escola. Para cada item, diga o que era, onde, quando e o que você fazia, começando por um verbo. Se tiver número, use.

Deixe clara a natureza da atividade: escreva “informal”, “autônomo” ou “voluntário”. Isso não tira pontos. O que tira pontos é o recrutador descobrir, na entrevista, que um bico virou “estágio” no papel.

Situação real Como pode aparecer no currículo O que mostra
Ajuda no comércio da família Atendimento no balcão da mercearia familiar (informal), 2024 a 2026: atendimento, troco e reposição de prateleiras Contato com cliente, lidar com dinheiro
Bicos em festas e eventos Auxiliar de garçom em eventos (autônomo), fins de semana em 2025 Pontualidade, ritmo, trabalho em equipe
Venda de doces ou revenda de produtos Venda de doces por encomenda, 2025: controle de pedidos e entregas em planilha Vendas, organização, noção de custo
Trabalho voluntário Voluntária na campanha de arrecadação da associação do bairro: triagem de doações e montagem de cestas Compromisso, organização
Projeto ou feira na escola Feira de ciências 2025: coordenei um grupo de 5 alunos e apresentei o projeto à banca Liderança, comunicação
Monitoria, grêmio, representante de turma Monitor de matemática no contraturno, 2026: reforço para alunos do 1º ano Responsabilidade, didática

Se nada disso se aplica a você, não invente. Um projeto pessoal verdadeiro já ocupa bem esse espaço: as redes sociais da loja de um vizinho, vídeos que você editou, uma planilha que você montou para alguém. Atividade regular em igreja, time ou grupo de bairro também conta.

7. Habilidades

Liste o que dá para testar: “Excel básico (soma, filtro, formatação de tabela)”, “digitação”, “Canva”, “inglês básico para leitura”. Diga o nível com honestidade, porque processos para vagas administrativas costumam incluir teste prático. Evite a lista de adjetivos (“proativo, comunicativo, dinâmico”). Comunicação e responsabilidade aparecem melhor nas atividades descritas na seção anterior.

8. Disponibilidade

Uma linha basta: turnos livres, se pode trabalhar aos sábados, se tem início imediato. Para aprendiz e estágio, deixe claro que o horário é compatível com o da escola.

Modelo de exemplo (dados fictícios)

Ana Beatriz Souza

Campinas/SP, bairro (nome) · (19) 9XXXX-XXXX (WhatsApp) · ana.souza@email.com · 16 anos

Objetivo: Jovem Aprendiz na área administrativa

Resumo: Estudante do 2º ano do ensino médio, turno da manhã, com experiência informal em atendimento no comércio da família e curso de Excel básico. Disponível à tarde.

Formação: Ensino médio – Escola Estadual (nome) – cursando o 2º ano, manhã – conclusão prevista em dez/2027

Cursos:

  • Excel básico – plataforma online gratuita – 20 h – 2026
  • Atendimento ao cliente – curso online – 12 h – 2025

Experiências:

  • Mercearia da família (informal), 2024 a 2026: atendo clientes no balcão aos sábados, faço o troco e ajudo a conferir a validade dos produtos.
  • Associação de moradores (voluntária), 2025: separei e organizei as doações da campanha de alimentos, entregues a cerca de 40 famílias.

Habilidades: Excel básico (soma, filtro, formatação), Google Docs, digitação, Canva.

Disponibilidade: tardes, de segunda a sexta.

Nenhuma linha está ali de enfeite: cada uma diz ao recrutador o que a candidata quer, quando pode trabalhar ou o que já fez.

Formato e envio

  • Uma página. Sem experiência, passar disso quase sempre significa encher espaço.
  • PDF exportado do editor de texto. Google Docs e LibreOffice são gratuitos e salvam em PDF. Dê ao arquivo o seu nome, como “curriculo-ana-souza.pdf”, e não “curriculo final (2).pdf”.
  • Layout simples, em uma coluna, com fonte comum entre 10 e 12. Barrinhas de “nível de habilidade”, ícones e colunas atrapalham os sistemas que leem currículos automaticamente. Os outros deslizes que derrubam candidatos nessa etapa estão em erros no currículo que eliminam na triagem.
  • Algumas cópias impressas para entregar em lojas, mercados e comércios do bairro, onde ainda é comum deixar o currículo no balcão.
  • Cadastro no app Carteira de Trabalho Digital. Pelo ícone de maleta, na barra inferior, você atualiza seus dados e objetivos profissionais, consulta as vagas do Sine compatíveis com o seu perfil e acompanha as candidaturas em “processos seletivos”, como explica o Ministério do Trabalho e Emprego. O acesso é com a conta gov.br, e no computador dá para usar o portal Emprega Brasil.

O que não fazer

  • Inventar experiência, curso ou nível de inglês. Informação falsa costuma aparecer na entrevista ou no teste, e aí você perde a chance com aquela empresa.
  • Escrever “não tenho experiência” ou pedir desculpas. O currículo mostra o que você tem.
  • Copiar frases de modelos prontos, como “sou uma pessoa comunicativa, proativa e que gosta de desafios”. Quem faz triagem lê isso o dia inteiro e passa direto.
  • Pagar para alguém montar o primeiro currículo. Com as seções acima e um editor gratuito, dá para fazer em uma tarde.

Perguntas frequentes

Preciso colocar foto?

Não. A foto é dispensável, salvo quando o anúncio pede. Se pedir, use uma imagem de rosto, com fundo neutro, roupa simples e sem filtro. Selfie de rede social não serve.

Posso colocar um curso que ainda não terminei?

Pode, desde que escreva “em andamento” e a previsão de término. Vale o mesmo para o ensino médio, o técnico e a faculdade.

Devo informar pretensão salarial?

Só se o anúncio pedir. Em vagas de aprendiz e estágio, o valor costuma vir no próprio anúncio. Nas demais, a conversa sobre salário normalmente fica para a entrevista.

Tenho 15 anos. Já vale fazer currículo?

Vale, mirando programas de aprendizagem, que aceitam a partir dos 14. As inscrições costumam passar pelas instituições que dão a parte teórica do curso, como as do Sistema S (Senai, Senac e outras) e entidades sem fins lucrativos, ou pelos sites de carreira das próprias empresas. É nessa etapa que o currículo é pedido.

O LDicas é um site informativo: não é agência de empregos, não participa de processos seletivos e nunca cobra para indicar vagas. Candidate-se sempre pelo canal oficial da empresa e desconfie de quem pedir pagamento.