Entrevista

Perguntas comuns em entrevista de emprego e como responder

Por Leonardo Paiva · 4 de novembro de 2026 · 10 min de leitura

Quase toda entrevista gira em torno de três dúvidas do recrutador: você consegue fazer o trabalho, vai querer fazer e vai se dar bem com a equipe. As perguntas mudam de forma, mas no fundo voltam sempre a esses três pontos. Quando você entende isso, para de caçar “a resposta certa” e passa a escolher o que contar.

O preparo que mais rende é simples: separar quatro ou cinco histórias reais da sua trajetória (emprego, estágio, escola, trabalho voluntário, um bico, a organização de um evento do bairro ou do time) e treinar contá-las em até dois minutos cada. Com essas histórias prontas, você responde boa parte das perguntas sem travar.

Os exemplos de resposta abaixo servem de molde. Troque pelos fatos da sua vida, porque recrutador percebe resposta decorada em poucos segundos.

Um formato para não se perder nas respostas

Para perguntas do tipo “conte uma situação em que…”, use a sequência Situação, Tarefa, Ação e Resultado (o chamado método STAR, sigla em inglês):

  • Situação: onde e quando aconteceu, em uma ou duas frases.
  • Tarefa: qual era a sua responsabilidade ali.
  • Ação: o que você fez, na primeira pessoa. “Eu liguei para o fornecedor” diz mais que “a gente resolveu”.
  • Resultado: o que mudou, de preferência com um número ou um fato que dá para conferir.

Erro comum: gastar um minuto e meio no contexto e dez segundos na ação. Inverta a proporção, porque o recrutador quer saber o que você fez.

Perguntas sobre você e sua trajetória

“Fale um pouco sobre você”

A pergunta testa síntese. Em um a dois minutos, mostre quem você é profissionalmente e por que está ali. Um roteiro que funciona: o que você faz ou estuda hoje, uma ou duas experiências ligadas à vaga e por que essa oportunidade faz sentido agora.

“Estou no último ano do técnico em administração e há oito meses faço estágio no financeiro de uma distribuidora, onde lanço notas e confiro boletos. Gostei muito da parte de conciliação bancária e quero seguir nessa área, por isso me candidatei a esta vaga de assistente financeiro.”

Evite repetir o currículo item por item, porque o recrutador já leu. E confira se o que você conta bate com o papel: datas e cargos diferentes do que está escrito acendem alerta, assim como os erros no currículo que levam à eliminação na triagem.

“Por que você saiu (ou quer sair) do seu último emprego?”

Aqui a empresa procura sinais de conflito mal resolvido. Fale do que você busca daqui para frente. Mesmo que o chefe anterior fosse difícil, criticar ex-empregador na entrevista quase sempre pesa contra.

“Aprendi bastante no atendimento, mas a loja não tinha como abrir espaço para mim no estoque, que é a área onde quero crescer.”

Se você foi demitido, diga de forma curta e sem drama: “Houve corte de equipe e meu cargo foi extinto” ou “Não me adaptei ao ritmo da função e hoje sei melhor o que procuro”. Não invente outra versão, porque referências podem ser checadas.

“Por que você ficou tanto tempo sem trabalhar?”

Um período parado no currículo raramente elimina alguém sozinho; o que pesa é a resposta evasiva. Diga o motivo em uma frase (cuidar de um familiar, estudar, mudança de cidade, procura que demorou) e passe logo para o que você fez nesse tempo: um curso gratuito, um trabalho informal, um projeto próprio.

Perguntas sobre a vaga e a empresa

“Por que você quer trabalhar aqui?”

Resposta genérica (“é uma empresa grande e sólida”) entrega que você não pesquisou. Reserve vinte minutos para o site da empresa, as redes oficiais e notícias recentes, e ligue algo concreto que viu a algo que você sabe fazer.

“Vi que vocês abriram duas lojas novas na região este ano. Participei da abertura de uma loja no meu emprego anterior, cuidando de cadastro de produtos e conferência de estoque, então acho que consigo ajudar rápido.”

“Por que devemos contratar você?”

Escolha duas exigências do anúncio e mostre, com um fato para cada, que você atende. Tentar cobrir tudo dilui a resposta.

“Onde você se vê daqui a cinco anos?”

O recrutador quer saber se seus planos combinam com o que a vaga oferece e se você tende a sair em seis meses. Responda com uma direção em vez de um cargo exato: “Quero estar mais experiente em logística, de preferência liderando uma equipe pequena.” Contar, numa vaga de operador, que pretende abrir o próprio negócio no ano que vem não ajuda.

Perguntas comportamentais

“Qual é o seu maior defeito?”

“Sou perfeccionista” e “trabalho demais” viraram piada entre recrutadores. Escolha um ponto fraco verdadeiro, que não seja central para a vaga, e conte o que você já faz a respeito.

“Eu tinha dificuldade de falar em reunião: esperava a hora certa e acabava não falando. No estágio, passei a anotar antes um ponto que queria levantar e a falar logo nos primeiros minutos. Ainda não é natural, mas melhorou bastante.”

Quando não usar um defeito: se ele for justamente a tarefa principal da vaga, como dificuldade com números numa vaga de contas a pagar.

“Conte sobre um conflito com um colega ou cliente”

Use o formato Situação, Tarefa, Ação e Resultado. Mostre que você ouviu o outro lado, manteve a calma e buscou uma saída. Histórias em que você é o herói e o colega é o vilão costumam soar mal.

“Fale de um erro que você cometeu”

Dizer que nunca errou é a pior resposta possível. Conte um erro real, de tamanho razoável, o que fez para corrigir e o que mudou no seu jeito de trabalhar depois disso.

Salário e disponibilidade

“Qual é a sua pretensão salarial?”

É a pergunta que mais trava candidato. Três passos ajudam:

  1. Pesquise antes. Compare as faixas de vagas parecidas na sua cidade e veja se a sua categoria tem piso definido em convenção coletiva. O sindicato informa, e as convenções registradas podem ser consultadas no sistema Mediador, do Ministério do Trabalho e Emprego.
  2. Fale em faixa, não em número fechado. Exemplo hipotético: se vagas parecidas anunciam entre R$ 2.200 e R$ 2.600, dizer “algo entre R$ 2.400 e R$ 2.600, dependendo dos benefícios” mostra que você conhece o mercado sem se colocar fora dele.
  3. Deixe claro que está falando do bruto. Em vaga com carteira assinada, a conversa costuma ser sobre salário bruto mensal. Dele saem o INSS e, conforme a faixa, o imposto de renda; o vale-transporte pode ter desconto de até 6% do salário básico.

Se o anúncio já trazia a faixa, diga se ela atende você. Responder “o que vocês pagarem” passa insegurança e tira sua margem de negociação.

“Quando você pode começar?”

Seja honesto. Se você está empregado com carteira assinada e vai pedir demissão, a regra é avisar a empresa atual com 30 dias de antecedência; sem esse aviso, o valor correspondente pode ser descontado das verbas rescisórias, como explica o Tribunal Superior do Trabalho. Dá para tentar negociar a dispensa do aviso com o empregador atual, mas não prometa começar “na segunda” sem saber se isso vai ser possível.

Resumo: o que cada pergunta avalia

Pergunta O que o recrutador quer descobrir O que evitar
Fale sobre você Capacidade de síntese e ligação com a vaga Recitar o currículo ou falar da vida pessoal
Por que saiu do último emprego Se há conflito mal resolvido Criticar ex-chefe ou ex-colegas
Por que quer trabalhar aqui Se você pesquisou e tem interesse real Elogios genéricos à empresa
Maior defeito Autocrítica e capacidade de melhorar “Sou perfeccionista”
Conflito ou erro Maturidade e jeito de resolver problemas Dizer que nunca teve conflito ou nunca errou
Daqui a cinco anos Se seus planos combinam com a vaga Planos que indicam saída rápida
Pretensão salarial Se o valor cabe no orçamento e se você conhece o mercado “O que vocês pagarem”

Perguntas que a empresa não deveria fazer

“Você é casada?”, “Tem filhos? Quem fica com eles?” e “Pretende engravidar?” ainda aparecem em entrevistas. A Lei 9.029/1995 proíbe prática discriminatória no acesso ao emprego por motivo de sexo, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar, deficiência, reabilitação profissional ou idade, entre outros. A mesma lei define como crime exigir teste, exame, atestado ou declaração sobre gravidez ou esterilização, com pena de detenção de um a dois anos e multa. A CLT, no art. 373-A, também proíbe recusar emprego por sexo, idade, cor, situação familiar ou estado de gravidez.

Há exceções legítimas: em vagas afirmativas, como as reservadas a pessoas com deficiência, a empresa pode perguntar sobre isso, porque o objetivo é incluir. Fora desses casos, você tem algumas saídas:

  • Responder pelo que importa para a vaga: “Minha rotina está organizada para cumprir o horário de vocês, inclusive aos sábados.”
  • Recusar com educação: “Prefiro não falar da minha vida pessoal, mas posso contar mais sobre minha experiência.”
  • Anotar, logo depois da entrevista, data, horário, nome de quem perguntou e o que foi dito.

Se você entender que foi discriminado, pode registrar denúncia no site do Ministério Público do Trabalho, escolhendo o seu estado, ou buscar orientação no sindicato da categoria, na Defensoria Pública ou com um advogado trabalhista.

Perguntas para você fazer no final

“Você tem alguma pergunta?” quase sempre fecha a entrevista, e responder “não, tudo certo” desperdiça a chance de mostrar interesse. Leve duas ou três anotadas:

  • Como é um dia normal nessa função?
  • O que seria um bom resultado nos primeiros três meses?
  • A vaga é para substituição ou para aumento de equipe?
  • Quais são as próximas etapas e em quanto tempo devo ter retorno?

Escala, horário e benefícios também são perguntas legítimas, se ainda não foram explicados.

Roteiro de treino em três dias

  1. Dia 1: releia o anúncio, sublinhe as exigências e escreva, para cada uma, um fato da sua trajetória que mostre que você atende.
  2. Dia 2: escreva suas quatro ou cinco histórias no formato Situação, Tarefa, Ação e Resultado. Grave-se no celular respondendo “fale sobre você” e “qual seu maior defeito”, ouça e corte o que for enrolação.
  3. Dia 3: peça para alguém fazer as perguntas fora de ordem. Se a entrevista for por vídeo, treine pela própria plataforma e veja as dicas de entrevista de emprego online para acertar luz, áudio e conexão.

Se não for aprovado, vale pedir um retorno ao recrutador. Nem todos respondem, mas quando respondem, a informação costuma ajudar mais na próxima entrevista do que qualquer lista de perguntas.

O LDicas é um site informativo: não é agência de empregos, não participa de processos seletivos e nunca cobra para indicar vagas. Candidate-se sempre pelo canal oficial da empresa e desconfie de quem pedir pagamento.